sexta-feira, 23 de junho de 2017

POEMAS DE MÁRIO DE OLIVEIRA

ENCHENTE
Mário de Oliveira (19??-1977)

Faz pouco, o rio parecia um veio
D’água, humilde, a fluir calmo e cantante,
Modulando saudades, se bem creio,
Do recôndito berço já distante...

Agora, entanto, alçando o colo, cheio,
Outro parece, – bélico, arrogante,
Arrasando, sem dó, qualquer bloqueio,
Que à cavalgada infrene surja diante!

É belo, assim, na galopada louca,
Qual um corcel fogoso, espuma à boca,
Espumantes balseiros conduzindo!

Espraiando-se, túrgido, iracundo,
Parece até querer tragar o mundo,
– Castigo da Bíblia repetindo...

jornal O Acre, 10 de abril de 1943, Ano XIV, N.689


SIMILITUDES
Mário de Oliveira

Quanto tempo a dormir, ó pobre coração!
Qual, da lenda vetusta, o castelo encantado
Da “Bela Adormecida”, assim, também, coitado,
Vives, há muito tempo, em longa hibernação...

Reza a lenda que, um dia, o “Príncipe Esperado”,
Cumprindo do Destino antiga predição,
Penetrou os umbrais da silente mansão,
Despertando a “Princesa”, e livrando-a do fado...

Semelhas, coração, à princesa lendária:
– Teu destino, também, é voltar para a vida;
Mas a ventura é curta e a tua sorte é vária...

Quanta vez redivive o teu sonho esplendente,
Despertado em contato a outra alma querida,
E volves, a seguir, ao castelo silente!...

O Acre, 7 de setembro de 1943, Ano XIV, N.710


PANORAMA
Mário de Oliveira

Por sobre a mata verde, que se estende
Qual um tapete gigantesco, imenso,
O pássaro metálico distende
As asas brancas, como um pando lenço.

Em baixo, o oceano florestal resplende
Em pujante beleza, que até penso
Pairar sobre um mar, de onde rescende
Um odor estranho, inebriante e denso.

Além, flocos de nuvens, como ovelhas
De um rebanho celeste, de que Eólo
É o pastor sideral, correm parelhas...

E o Acre, silencioso, serpenteia
Em baixo, em mil volteios, sobre o solo,
Qual anaconda imensa, que coleia...

O Acre, 12 de setembro de 1943, Ano XIV, N.711


MANHÃS DE BRUMA
Mário de Oliveira

Antemanhã de inverno. Apenas, no levante,
Surgem do dia, ao longe, os primeiros albores.
O sol, a espreguiçar-se, oculta-se distante,
No inconsútil lençol de brumas e vapores.

A úmida cortina estende-se triunfante
A mata, ao campo, ao rio, insinuando langores,
Até que o astro, desperto, afinal dominante,
O velário descerra, espargindo fulgores.

A resistir, entanto, à vitória da luz,
O pesado nevoeiro aos poucos se reduz,
Esgarçando se em véu de nitente neblina.

Por momentos, então, a cortina suspensa,
– O rio se transforma em nívea toalha imensa,
Toda argêntea, a brilhar, em líquida platina.

O Acre, 14 de Novembro de 1943, Ano XIV, N.720
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MÁRIO DE OLIVEIRA era natural Rio Branco, onde faleceu em 1977. Licenciou-se em Ciências e Letras e em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade do Estado do Ceará, tornando-se, assim, o primeiro acreano a formar-se em Direito. Homem de grande erudição, foi poeta, jornalista, orador, advogado e educador. Membro-fundador da Academia Acreana de Letras, escreveu “Jardim Fechado” (1971).
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