segunda-feira, 4 de outubro de 2010

FOLCLORE ACREANO: MITOS E LENDAS

Isaac Melo


Um dos primeiros trabalhos a tratar do folclore acreano surgiu por volta de 1938. Trata-se do livro de Francisco Peres de Lima, “Folk-lore Acreano”, um esborço geral acerca da cultura material e espiritual da população acreana, com enfoque em descrições física e geográfica do estado. Outra obra relevante que vem complementar a de Peres de Lima é “Fatos, Cultos e Lendas do Acre” de José Inácio Filho, publicada no Rio de Janeiro, em 1964. Nesse sentido, é necessário também ressaltar duas outras publicações: “Estórias Amazônicas” de Epaminondas C. Baharuna, de 1974, e a do Pe. José Carneiro de Lima intitulada “Folclore Acreano: histórias e costumes”, cujo ano de publicação é 1987. Merece ainda uma menção especial o artista plástico acreano Hélio Melo que escreveu alguns livros acerca das histórias que povoavam o imaginário do homem seringueiro, dentre estes, “O Caucho, a Seringueira e Seus Mistérios e História da Amazônia”.

A palavra folclore, do inglês folk e lore (povo e saber), literalmente, significa saber tradicional de um povo. Grosso modo, pode ser definido como um conjunto de mitos e lendas que as pessoas passam de geração para geração. Muitas dessas lendas e mitos nascem da pura imaginação, outras a partir de fatos históricos. Muitas delas foram criadas para passar mensagens importantes ou apenas para assustar as pessoas. São exemplos de grandes estudiosos do folclore brasileiro Sílvio Romero, Câmara Cascudo, Joaquim Ribeiro, etc.

Passamos a uma breve descrição das principais lendas e mitos que povoam o imaginário do povo acreano. Algumas, sabe-se, de caráter mais geral, outras mais específicas, variando, às vezes, de cidade para cidade. São usados como referenciais os livros de José Inácio Filho e Francisco Peres de Lima. Algumas narrativas foram transcritas ipsis litteris, outras sofreram pequenas adaptações.

MAPINGUARI
De todas as lendas do Acre esta é talvez a mais comum a todos. Conta-se que o Mapinguari deriva-se dos índios que alcançam uma idade avançada, transformando-se em um monstro das imensas florestas. É cabeludo como um macaco, de um só olho na testa, pés e mãos semelhantes à de uma mão de pilão, pele igual ao couro de jacaré, ataca para matar, invulnerável às balas dos caçadores, só morrendo, quando atingido no olho. Exala um odor muito forte. Costuma soltar gritos na floresta, a confundir seringueiro e caçador, que ao responder, pensando ser alguém perdido, torna-se presa do temível Mapinguari.

GOGÓ DE SOLA
O Gogó de Sola, segundo crença, quase geral, dos acreanos, é um macaco, como qualquer outro, que vive nas matas distantes dos tapiris. Diz-se que o nome lhe veio de ele possuir o pescoço castanho-vermelho, pelado, semelhante a uma sola. Destaca-se dos outros seres da sua espécie, por ser muito valente e ofensivo, apesar de seu pequeno tamanho. Ataca qualquer animal, a onça, o burro, e até o homem. É fama que onde ele firma os dentes jamais os retira, só se lhe cortar a cabeça. Os caçadores temem-no, visto que não há bala que lhe acerte, por melhor que seja a pontaria. Sua ligeireza impressiona. Pula que nem diabo, quando se sente atacado. Alguns supõem ser, na verdade, o gogó de sola um cão do mato, atacado de hidrofobia, tanto é assim que só nos meses de fevereiro e março , devido à metamorfose da doença, é que ele é encontrado.

A ALMA DE BOM SUCESSO
Num seringal chamado Cumaru, em Assis Brasil, vê erguer-se à veneração dos fiéis, há anos de que a tradição perdeu a conta, a capelinha milagreira da Alma de Bom Sucesso (canonizada pelo povo como Santa Raimunda), numa clareira dentro de espessos e vastíssimos tabocais. É muito grande o número de peregrinos que aflui de toda a região acreana ao local onde a santa de Bom Sucesso (nome da colocação em que vivia) espalha milagres e milagres sem conta. A lenda é demais conhecida desde as cabeceiras à boca do Acre. Há muitos anos, por volta de 1910, uma mulher, em plena selva, sentiu as dores do parto, e, sem ninguém que a assistisse, aliviou-se, dando à luz duas criancinhas. Afastando-se, talvez, grande distância, de seu tapiri, não tinha pensado que o parto ocorresse durante a viagem. Sozinha, no seio da mata, sem cuidados de segundos, por motivos não conhecidos, que podem ter sido diversos, não pode resistir e, assim, nessa situação, entregou a alma a Deus. Mais tarde, foram encontrados os corpos da infeliz mãe e de suas filhinhas sobre um grande formigueiro.

A RASGA-MORTALHA
Entre as aves do Acre a mais temida e respeitada, não obstante o seu pequeno tamanho, é a Rasga-Mortalha. Os acreanos consideram-na ave sobrenatural por trazer consigo estranhos avisos do Céu. O seu canto imita o rasgar de grosso pano. E dizem ser mais agouro, quando passa e canta por cima de uma casa. É que ela está preparando a mortalha para alguém prestes a morrer.

CIPÓ HOASCA
O cipó hoasca ou ayahuasca encontra-se, geralmente, às margens de igarapés, mas dizem que também vive em agrestes matas de terrenos secos. Quando se ergue, na mata, bem pequenino, ainda mal rastejando pelo úmido chão, já procura apoiar-se ao tronco da primeira árvore que encontra. Aí, bem enroscado, de pouquinho a pouquinho, cresce, torna-se grande. Então, já adulto – fato, na verdade impressionante! – começa a soltar, de tempo a tempo, sons semelhantes aos de um bombo, escutando-se, a seguir, zoada de grande falaria que se ouve ao longe, e que chega a assustar até os bichos ferozes. O povo supõe que esses ruídos misteriosos vêm do cipó; mas, a verdade é que, de perto, nunca se ouvem, pois, à medida que alguém se aproxima dele, tudo se vai acalmando, como se não houvesse escutado nada. Difere das outras espécies de cipós pelos seus bonitos cachos de flores, de tons brancos e róseos, que se vão estendendo em ramilhos por todo ele, tornando um todo florescente em que, apenas, se vislumbra o pé. Desse cipó faz-se a bebida conhecida como daime. Depois de cortado, deixa um vestígio igual ao da pisada de um tigre nos caminhos de terra mole, sendo daí levado para a barraca passando por diversos processos, ficando finalmente dentro de uma “bolsa defumada” pelo espaço de trinta dias no mínimo, para que possa surtir os efeitos desejados. Dizem que o cipó depois de cortado em cruz forma uma figura que se assemelha a um tigre. É importante ressaltar que o uso do chá da hoasca é bem anterior à apropriação feita pelos movimentos religiosos hoje conhecidos como Santo Daime e União do Vegetal.

A TIRANABÓIA
Dentre os animais e insetos misteriosos da fauna acreana conta-se a tiranabóia, pequeno inseto que possui um ferrão quase igual ao tamanho do resto de seu corpo. Tem vida curta e é encontrado somente em determinada data, preso nas árvores pelo seu ferrão que aí fica cravado. Dizem que ele é cego e no seu ciclo de existência sai voando às tontas, conservando sua arma sempre voltada para frente, até encontrar o obstáculo onde a crava, terminando aí a sua vida desconhecida. Uma árvore ainda que seja de proporção gigantesca, sendo por ele atingida, não resiste ao veneno do perigoso inseto, secando e morrendo dias depois.

ACOÃ
A acoã ou acauã é uma pequena ave da bacia amazônica que vive em baixas ramadas. Seu triste canto significa aos olhos dos soldados-da-borracha morte e agouro de muita chuva. Tudo de mal que acontece aos seringueiros eles atribuem ao seu cantar.

O BOTO
A lenda do boto é comum a toda região amazônica. No Acre costuma ter duas variações: a tradicional, sobre o moço bonito, trajado de branco e com um chapéu de palha na cabeça que sai dos rios e vem ao encontro das moças dirigindo palavras amorosas, prometendo venturas, e, até, casamento. Seduzidas, adormecem, e assim, tontas, sem saber como foi, em cima dos feijoais das praias despertam com o corpo dorido. A outra variação diz que os botos são pessoas encantadas, isto é, espírito de pessoas que foram habitar nesses animais. Costuma-se nunca deixar as crianças pagãs (sem batismo cristão) ir à beira do rio sozinhas, pois encantam-se em botos.

CAIPORA
O negrito caipora (para alguns pai da mata) seria um ente fabuloso que habita e protege a selva acreana, sempre a procura de tabaco para mascar. Costuma atacar os cachorros dos caçadores. Quem for caçar nas matas do Acre, não se esqueça de sempre oferecer tabaco ao negrito. Se não, nada conseguirá, principalmente, levando cachorros, que apanham do negrito com pedaços de cipós, tirados das árvores.

COBRA GRANDE
São muitos os relatos sobre as enormes cobras que habitam os rios acreanos, sobretudo nos lugares chamados de remansos, estes chegam a algumas dezenas de metros de profundidade. Cobras que chegam à grossura de um tonel de 200 litros. Há também referências acerca da cobra-encantada. Esse animal fabuloso está sempre viajando as águas do imenso Rio Amazonas, entrando no Purus, Juruá, Acre, até onde a profundidade das águas lhes oferece ampla passagem, regressando depois de percorrer os seus tesouros encantados no grandioso reino, nas profundezas do grande rio mar.

O CABORÉ
O Caboré é uma ave noturna, vulgaríssima no Acre, de cor parda, e grandes olhos amarelados. Vive dormindo ou cochilando nas ramadas escuras das árvores ou nas palhas dos coqueiros. Raramente se vê com o sol claro. Sai dos seus esconderijos, em geral, à tardinha, quando o sol desce, no fundo da mata. O seu canto é muito triste e, nas frias e longas noites inverno, o Caboré parece pedir com voz lamurienta, de cortar a alma, que venha sol...! sol...! sol....!

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FILHO, José Inácio. Fatos, Cultos e Lendas do Acre. Rio de Janeiro: Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1964.
LIMA, Francisco Peres de. Folk-lore Acreano. Rio de Janeiro: Brasília Editora-Rio, 1938
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