quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

POETA JORGE TUFIC

Jorge Tufic Alaúzo era natural de Sena Madureira-AC, onde nasceu no dia 13 de agosto de 1930. Descendente de uma família de comerciantes árabes, seu pai desenvolveu suas atividades comerciais nos seringais. Com o declínio da produção de borracha, transferiu-se, no início da década de 40, para Manaus, onde realizou seus primeiros estudos. Exerceu, durante boa parte de sua vida, a atividade de jornalista. Com a aposentadoria, afastou-se do funcionalismo público. A partir do início da década de 1990, fixou-se em Fortaleza, dedicando-se exclusivamente à literatura. Por sua longa vivência no Amazonas, é, por isso, considerado um dos poetas mais expressivos da moderna literatura amazonense, sua estreia literária aconteceu em 1956, com a publicação de Varanda de pássaros.

Tufic foi um dos fundadores do Clube da Madrugada, em 1954, um dos mais importantes movimentos literários do Amazonas, “que objetivava a inserção do discurso artístico e do fazer literário amazonense no cenário do Modernismo brasileiro”. Era membro da Academia Acreana de Letras, cadeira de número 18, cujo patrono é Couto de Magalhães; e da Academia Amazonense de Letras (desde 1969), onde também ocupava a cadeira número 18, do patrono Jonas da Silva. No Amazonas, ainda integrava a União Brasileira de Escritores e o Conselho Estadual de Cultura, tendo sido também “fundador da Fundação de Cultura do Amazonas, que, mais tarde, daria origem à Secretaria Estadual da Cultura”.

O Sindicato dos Jornalistas do Amazonas, em 1976, o homenageou com o prêmio “Poeta do Ano”, dado a importância de sua produtividade literária. Autor da letra do Hino do Amazonas, cuja música é de Cláudio Santoro, ao alcançar o primeiro lugar, em concurso nacional, promovido pelo então governador José Lindoso, no ano de 1980.

Jorge Tufic faleceu em São Paulo-SP, quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018, acometido por um câncer no pulmão.
OBRAS

POESIA
Varanda de pássaros, 1956;
Pequena antologia madrugada, 1958;
Chão sem mácula, 1966;
Faturação do ócio, 1974;
Cordelim de alfarrábios, 1979;
Os Mitos da criação e outros poemas, 1980;
Sagapanema, 1981;
Oficina de textos, 1982;
Poesia reunida, 1987;
Retrato de mãe, 1995;
Boléka, a onça invisível do universo, 1995;
Os quatro elementos, 1996;
A insônia dos grilos, 1998
Sinos de papel, 1998;
Quando as noites voavam, 1999;
Sonetos de Jorge Tufic, 2000;
Dueto para sopro e corda, 2000;
Poema-Coral das Abelhas, 2003;
Cordelim de Alfarrábios II, 2003.

CONTO
O outro lado do rio das lágrimas, 1976;
Os filhos do terremoto, 1976.

ENSAIO
Américo Antony – O Guru da Amazônia, 1978;
Os códigos abertos (fragmentos), 1978;
Existe uma literatura amazonense, 1982;
Roteiro da literatura amazonense, 1983;
Literatura Amazonense: uma proposta de linguagem, 1986;
Curso de Arte Poética, 2002;
Amazônia – o massacre e o legado, 2011.

CRÔNICA
Tio José, 1976

MEMÓRIA
A Casa do tempo, 1987

ROMANCE
Um Hóspede Chamado Hansen, 2009

*

“O discurso poético de Jorge Tufic se desenrola no curso dessas duas margens: de um lado, a margem reflexiva, identificado com a dimensão transcendental da existência, marcada por forte conteúdo existencial. A outra margem do discurso poético de Tufic se fundamenta nas preocupações formais e no caráter experimental de seu processo de criação. sua produção literária é uma evidência de sua identificação com o universo regional, seu esforço em criar uma obra identificada com os mitos, anseios e esperanças do homem da Amazônia”. (Tenório Telles, apresentação in Varanda de Pássaros (Valer, 2005)
ERA UMA VEZ UM CALIFA

Ao poeta Jorge Tufic

Era um califa amante dos bons vinhos
das mulheres, das armas, dos cavalos
das auroras sonhadas pelos galos
dos augúrios dos magos e adivinhos.

Padecia da insônia do espantalho
prezava o amor e as artes do negócio
passava noites cavalgando o ócio
de todas as donzelas do serralho.

(Um vento de presságio veio vindo
do mar, das naus ancoradas no porto.
O que era sonho, agora é destino).

Provou do amor de mais de cem fidalgas
até que um dia foi achado morto
sob o luar de sangue das adagas.

Francisco Carvalho

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

TERRA CAÍDA: Catulo da Paixão Cearense

COMEÇA este poema na noite em que o grande violeiro — Chico Mindélo, de volta ao Ceará, depois de uma ausência de sete anos no trabalho dos seringais, no Amazonas, a pedido do povo do sertão, vai contar o que se passou consigo, por aquelas paragens.
Terra Caída são as terras que se desmoronam, à margem do rio, com fragor, levando grande extensão de frente e fundos.


TERRA CAÍDA
Catulo da Paixão Cearense (1863-1946)

Ao insigne Mário José de Almeida


Faz hoje sete janêro
que eu dêxei o Ciará,
e rumei lá prô Amazona,
a terra dos siringá.

N'aquelas mata bravia,
lá, nos centro arritirado,
as arve tem munto leite,
mas nós já tâmo cansado!

O inverno, n’aquele inferno,
é uma grande internação!
No inverno não se trabaia,
que é o tempo da alagação.

Isperei. Veio o verão.
É mais mió não falá!...
Tú qué sabê, meu amigo,
o que é os siringá?!

É trabaiá... Trabaiá!
É um hôme se individá!
É vive n’uma barraca,
N’um miserave casebre 
e sê ferrado da febre,
que anda danada prú lá!

É trabaiá, trabaiá,
dênde que rompe a minhã,
prá de dia sê chupado
pulo piúm, que é marvado,
e de noite sê sangrado
pulo tá carapanã!!

É um hôme dá todo o sangue
prô mardito do piúm,
e vortá mais disgraçado,
cumo eu — o Chico Mindélo,
duente, feio e amarelo,
cumo a frô do girimúm.

Ansim, lá dos siringá,
no fim de três, de três ano,
sem um vintém ajuntá,
ia vortá prá Manáu,
tãndo fixe na tenção
de Manáu vim prô sertão
do meu quirido Ciará.

Apois!... siguindo os consêio
que me dava o coração,
arrêzôrvi não vortá!

N’um terreno, im ribancêra,
na bêra mêmo do rio,
despois d’um ano gastado
de trabaio cum o machado,
prá aquelas árve gigante
na derrubada quêmá,
incoivarei um roçado
e cumecei a prantá:
feijão, mio, mandioca,
e fui filiz no lugá.

A terra era munto bôa
prá fazê um roçadão:
tão bôa, que era percizo
vivê cum a inxada na mão!
Se um hôme mamparriasse,
a imbaúba, a gitirana,
o mata-pasto, a caíva,
o taxizêro danado,
o taquarí... n’um instantinho,
tudo cubria o roçado.

“Cabôco Onça” era ansim
que eu ali era chamado.

Apois, no fim de dois ano,
cumpade, eu já pissuía
umas cabeça de gado!

Mas porém, meu véio amigo,
tudo o que hoje o hôme faz,
n’outro dia Deus disfaz!

____

Ouve. Um dia, Zé Pacú,
indo a Igarapé-Assú.
onde tinha um ajurí,
levou cum êle uma fia,
quê se chamava — Maibí.

O pagode, a festa, o sambo,
era im casa d’um rocêro
de nome: — Antônio Truamba.

No pagode do Truamba,
chorei tanto na viola,
de noite inté de minhã,
que a fermosa cunhatã
teve uns caído prá mim!

óia, a coisa foi ansim.

A cabôca fez premessa
de nunca mais me isquecê!

Que pena não sabe lê!

Ela disse tanta coisa,
tanta palavra bunita,
que eu, inté, nem sei dizê!

Nunca tive tanta pena
e tanta malincunia
de não sabe inscreve!

Agora váíncês me diga:
o que havéra eu de fazê?!

A festa tinha acabado!
Eu táva diseambimbado!

Na hora que toda gente
já táva se adispidindo...
a muié táva chorando!
Vendo a muié saluçando...
fui assuntando... assuntando.
e... odespois, arresôrvi!
Pidí a mão de Maibí!

Nos óio dos cunvidado
correu uma ispantação!

A cara dos namorado
de Maibí, naquele instante,
ficou taliqá se visse
uma grande assombração!

Maibí ficou tão contente,
quando o pai, arrêzôrvido,
no meio de tôda gente,
satisfez o meu pidido.

Eu não quiria!.... É verdade!
Mas porém, era mardade,
era mardade e perrice
não crê naquelas denguice
duma muié adorada,
nem nas coisa que jurava
cum a sua palavra honrada!

Apois, ficou ajustado
que, despois de mais dois ano
de trabáio no roçado,
nós havéra de casá.
Despois da festa acabá,
a festa do seu Truamba,
uns prá aqui, outros prá lá,
cada um siguiu viage.

A barraca do Paçú,
do véio pai de Maibí,
ficava lá da outra marge,
da outra banda do rio,
num bunito massapêz.
Só de três mês im três mês,
eu fazia a travessia,
(duas hora de canoa...)
prá hí vê a curumim,
e só quatro mês fartava
prás coisa chegá no fim.

Zé Pacú dava um pagode
no dia oito, im dezembro,
que é o dia da Cunceição!

Cum rézão ou sem rézão,
João Capixaba, um caúchêro,
das banda de Sairé,
me contou que a cabôquinha
numa festa, im Caeté,
no dia de S. João,
só cum caquêro dançou,
e prú via disso a festa
im tempo quente acabou!!!

Dei tempo ao tempo: isperei.

O dia oito chegou!!!
“vamo vê”, disse cumigo,
“se o cabra não me inganou.”

*

Naquele braço da costa,
de todo lado se via,
atupetada de gente,
as canoa, as montaria.

Vinha decendo um Gaiola.

Pequei na minha viola,
e decí pulo barranco!

A lua, branca arupêma,
tôda redonda e cheínha,
penêrava lá de riba!
E o rio táva tão branco,
cumo um montão de farinha!

Remando naquela hora
prá barranca da outra marge,
um bando de montaria,
carregando os cunvidado,
foi siguindo de viage.

O Pacú era quirido e cunhicido de tudo!
Vinha gente inté de longe,
lá das banda do Serudo.

Nunca vi tanta canôa
atupetada de gente!
As água mansa do rio
se ria inté de contente!

A noite táva bunita,
cum seus vistido de chita,
da cô da frô dos ipé
A noite infeitiça a gente,
pruquê a noite é uma miué!

Ansim, bunita e fermosa,
cum uma saia toda azú,
cheguei a pensá que a noite,
a noite da Mãe de Cristo,
tinha sido cunvidada
prá festa do Zé Pacú!

Sartei no barco velêro,
e a viola temperando,
bejei as águas do rio,
e fui cantando e cantando:

«Nosso Sinhô, quando andava
pulos dizerto, a rezá,
gostava de uví São Pedro
na viola puntiá.

São Pedro diz que a viola
foi feita, num disafio,
de canoa que êle andava
cum o Cristo a pescá no rio.

Não foi feita da canôa,
mas porém da sua cruz!
A viola ainda sofre
tudo o que sofreu Jesús!

Quando Deus fez a viola
e cumeçou a cantá,
seu coração ficou rôxo,
cumo a frô do manacá!...

Deus é o rei dos violêro
quando canta o seu amô,
nas corda santa da lua,
que é a viola do Sinhô!»

E fui remando... remando..
E há duas hora eu remava
e um bom cigarro pitava
de páia de tauarí,
quando abispei a barraca
do véio pai de Maibí.

Mais umas duas remada
e, entonce, filíz, cheguei!

No porto, entre as canarana
a igarite amarrei!

Ali, na bêra do rio,
manso, cumo uma lagôa,
os cunvidado da festa
vinha chegando e sartando
duma prução de canoa.

Nunca vi tanta canôa,
atupetada de gente!

As água mansa do rio,
todo inrugado, increspado,
se ria inté de contente!

A casa táva no arto!

Pulo um caminho insombrado,
assubi pulo barranco!...
isvisguei pulo terrêro!...
Quebrei do lado da mata,
onde tinha um assacuzêro!...

A barraca do cabôco
táva tôda inluminada
e quage tôda afogada
numa moita de abiêro!

Nas pórka e varsa e quadrilha,
a dança táva animada!
O somo da frauta e a viola
se misturava cum o chêro
das fulô dum jasminêro,
que intrava pula jinela!

A Mãe de Cristo, tão bela,
num óratório enfeitada,
táva no meio das véla,
morena e toda istrelada,
rezando, cumo uma istrela,
na boca da madrugada!

De repente, im toda a festa,
donem um rumo mais se uvía!
O nome dela – Maibí, –
de boca im boca curria!

Um matêro ou um seringuêro,
bateu parma no terrêro,
e fez prá tudo um siná.

Era o samba e era ela,
era Maibí, quem prêmêro
no samba vinha sambá.

Do lado da caiçára,
na quina da ribancêra,
me iscundi atrás do tronco
duma véia piranhêra.

Quando avistei a cabôca,
quage chorei de verdade!
Ai, meu Deus, cumo é bunita
a morte duma sôdade!!

As viola gemeu de novo,
e ela se-pôs-se a brincá,
tremendo num miudinho,
sem se arredá do lugá!

Ao despois, a sala tôda
correu num sapatiado,
disafiándo prá dança
os pobre dos cunvidado,
que logo baxava os óio,
ansim cumo ínvregonhado.

As caboquinha, inciumada,
já não pudia mais, não!

Quando os noivo se assanhava,
elas ferrava nos braço
dos seus noivo um biliscão.

Maibi quebrava no côco
cum tanta requebração,
que se a Maãe de Deus sambasse
tarvez que váincês jurasse
que quem sambava era Ela!...
A Virge da Cunceição!...
A Mãe de Deus, do Sinhô!!!!

Nisto, um roquête de parmas
im toda sala istrondou!

Foi quando, entonce, um vaquêro
ainda moço e temêro,
prá riba dela imbicou!!!!

De camisa tôda branca,
cum o peito todo arrufado,
no pescoço examurrádo
um lenço cô de limão...
butão de ouro nos punho!...
Purriba das carça nova
um pezado correntão...
O cabra, remunhentando,
castanholando cum as mão,
imbigando prá morena,
requebrava as suas perna,
no requebrado das perna,
zunindo, cumo um pinhão!!!

Quando o vaquêro cansava,
ela ia arrecuando,
que nem si via os seus pé!.. .
Quando o vaquêro avançava,
ela ia arrecuando
fugindo, cumo a marréca
da boca do jacaré!!...

Se o vaquêro abria os braço,
atirando uma laçada,
Maibí fugia do laço,
sortando uma gargaiadá!

E agora é que ela dançava
e os musgo a musga apressava
e ela sambava, sambava,
sem um momento apara!...
“Ai, meu tempo!” num gimido
gritava as véia aculá!
Xingava as véia os marido,
que alevantando os pescoço,
xingando tombem as véia,
dava parma, cumo os moço,
vendo o demônio ródá!

Deus me perdoe a hirizia!
Mas porém, eu vi a Santa,
eu vi a Virge Maria,
batendo parma do artá!

O vaquêro, arenegado,
ficou num canto, isbarrado,
Capíongo, discunchavado,
sem quáge pudê falá!

Tinha cansado o marvado!
Já não pudia sambá!

E o pai, óiando prá ela,
e achando a fia mais bela,
acendeu o seu cachimbo,
e... era pai... pôs-se a chorá!

Entre as nuve de puêra,
a cabôca paricia
taliquá dos capuêrão,
doida, às tonta e às marrada,
fugindo entre os ispinhêro,
dum valente boiadêro,
pulos mato do sertão.

Entonce, currupiando,
sem tomá fôrgo na dança,
a móde cumo criança,
abria a boca dengosa,
e entonce a língua trimía
entre os dente da cabôca,
querendo saí da boca,
cumo uma cobra de rosa.

Os dois copuassú morêno,
maduro, fresco, fermoso,
dois curumim vregonhoso,
que ninguém pudia vê,
pru báxo daquelas renda,
tinha o chêro, inda quentinho
da boca dum bizerrinho,
quando acaba de nacê.

Os périnho da cafuza,
que se tu visse, chorava,
não dançava, parpitava,
taliquá dois coração!
Tão leve, que paricia
num rodá de carapêtâ,
um casá de barbuleta,
brincando rente do chão!

Os óio, que tinha o fogo
das tarde, quando se intôna,
tinha no fundo a beleza
de tôda aquela tristeza
que tem o rio Amazona.

Não tinha boca!... Era a boca
uma gaiola de sangue,
adonde, quando falava,
a gente logo imitava,
saluçando, um irachué!
Mas porém, quando calava,
pidindo, tarvez, um bêjo,
 ficava a boca mais rôxa
do que a frô do mururé.

Um bêjo naquela boca
era um má, que não tem cura!
Se tinha a doce frescura
da sombra das quizabêra,
tinha a frevura do bêjo,
que o rio, vindo dos cume,
arrebenta no ciúme
da boca das cachoêra!
Ai! os cabelo!... Os cabelo,
que às vez, num riviramento,
tapava a cara da dona
naquele adivertimento,
era preto, cumo o sonho
dum cego de nacimento!

Quando um momento aparava,
dêxando o suó moreno,
cumo os pingo de sereno,
pru todo o corpo corrê,
a sala ficava cheia
desse ôrôma que se sente
do chêro da terra quente,
quando cumeça a chuvê.

Ansim, quando ela sambava,
uma rosinha amarela,
que táva ainda im butão
caiu dos cabelo dela,
amachucada no chão.

Os musgo, tudo suado,
cum os óio de urúiáuára,
os instrumento aparou!

Entonce, o cabra sarado,
de venda de ripolêgo,
do chão a rosa panhou!

A cabôca, óiando os musgo
que ainda táva cansado,
cum as língua toda de fora
de tanto e tanto tocá,
deu um muchôcho brejêro
fez um ixe — prô vaquêro,
e introu de novo a sambá,
cumo a fôia do trapiá,
que o vento brabo da serra
vai rolando, pula terra,
num curupio inferná!

E as parma ainda istralava,
no meio da cunfuzão,
quando se uviu um baruio
que paricía um truvão!

Todo o mundo prá barranca
naqule instante correu!...

A noite táva mais branca
que Jesus, quando morreu!

O cabra, fazendo infuca,
pruvdtando a cunfunzão,
fez um bico prá cabôca,
e deu um bêjo na boca,
um bêjo!... Sim!... Mardição!!

João Capixaba, o cauchêro
não mintiu!... Tinha rêzão!...
Era o vaquêro mardito
da festa de Caeté,
da festa de São João!...

“O que foi, gente, o que foi?!”
todo o mundo preguntava
prô pai, que lá da barranca,
já sastifeito vortava,
                       a gritá:
“Vamos!... Vamo! Minha gente!
– Não dêxa a festa isfriá!
– Não foi nadai... Não foi nada!...
– Foi coisa munto sabida!
– Arguma Terra Caída!...
– Toca a ri!... Toca a sambá!"

Na verde guarapiranga
chorava um camétaú!

Agora é que se isquentava
a festa do Zé Pacú!...

Saindo detrás do tronco
da fermosa piranhêra,
rumpi pula tacaniça!...
Dicí pula ribancêra!
Uma tuada sôdosa
nos gimido das viola
se misturava cum o chêro
das fulô do jasminêro,
que vinha lá da janela.

Arguem cantava!... Era ela!...

Rasguei cum o quicé a corda
da igaríté!... Imbarquei!...
Baixinho disse um segredo
prô rio!... E remei!... remei!...

Cada vez remava mais
Só despois de munto tempo,
parei... e ôiei prá traz!

A barraca mluminada,
cum a musga, que inda se uvia,
longe, longe... munto longe
cumo uma istrela... murria!

O céu, de todos os lado,
parida uma tigela
cum o fundo azú imbórcado,
todo ismartado de novo,
adonde a lua, tão bela,
ia boiando, amarela,
cumo uma gêma de ôvo!

Já trazia de viage
duas hora, bem puxada.

Lá, prás banda do Nacente,
entre as suas cumpanhêra,
noutra festa inluarada,
sambava a mais feiticêra
das istrêla amorenada,
essa Malbí dos incréu!...
— Essa cabôca do céu:
— A istrela da madrugada!

Entonce, peguei do remo,
rasguei as água do rio,
que, fazendo um arripio,
do sono dágua acordou.
Remei!... Remei!... Fui remando!..
E... não cheguei!... Foi somentes!
a canoa que chegou!...

Neste sertão do Ciará,
onde naceu nossos pai,
filizmente, ninguém sabe
que coisa é terra que cai!...

Aquele instrondo, de longe,
que lá na festa se uviu,
foi quando a terra, essa ingrata,
a minha terra adorada,
farciou!... tremeu!... caiu!...

Os juai, as bacabêra,
os coité, as laranjêra,
as moita de cacáuêro,
os verde ginipapêro,
os grande canarassú,
adonde todas as tarde
cantava um iapurú...
as fermosa mongubêra,
as monbugêra inda im frô...
a juruparipirêra,
que táva im frente da choça
a criação... gado... roça...
tudo o rio me levou!
Mas, que isso, minha gente?!
Váincês tudo ficou triste,
despois que a históra acabou?!
Tristeza não dá vantage!
O que passou, já passou!

......................................................
......................................................

Deus, que um dia fez o hôme,
pula sua santa image,
fez o nosso coração,
cumo as frorésta bravia
das terra virge... sarvage!

Virge, im suas mataria!...
Sarvage, im saa grandeza!...
Mas porém, que tem beleza
prá quem aprêcêia as coisa
mais grande da natureza!

Um dia, vem a muié!

A muié pega um terçado,
pega uma foice, um machado,
disgaia o mato fechado
das terra do coração!
E aos despois da derrubada,
despois do fogo — a quêmada –
a muié pega uma inxada,
cava a terra, bem cavada...
e samêia!... É a prantação!

Tudo quanto é frôração,
toda a frô que a terra cria,
tudo nace, ali, num dia,
onde táva a mataria
no fundo do coração!

Se a muié sabe que é ingrata,
prá quê vai mexê nas mata
e quêmá, cumo um brinquedo,
o mato virge, cerrado,
iscuro e sêmpre fechado,
adonde não tinha intrado
a luz do Só, que é o Amô!?

É prá despois, sem rezão,
derrubá prá toda a vida
o jardim do coração,
sem um tíquinho de dô!

Maibí!... Maibí me inganou!!

O rio, numa treição,
o trabáio de seis ano,
as terra da prantação
im suas água levou!

Maibí!... Maibí me inganou!!

Bem feito! Fui castigado!
Foi praga da minha terra!
E praga de Deus inté!

Mas peço à Virge Maria,
que, cumo Muié divina
e Mãe de Jesus, perdoe
Maibí, que é tombem muié!!

Tudo foi uma inluzão!

Do jardim que ela prantou,
nas mata do coração,
só véve agora uma frô!...
Só a Sôdade tem vida!!!

E o que é, meu Deus, a Sôdade?!

Sôdade é a Terra Caída
de um coração, que sonhou!


Poema retirado da revista A Noite ilustrada: edição especial Homenagem a Catulo da Paixão Cearense (19-7-1946), às páginas 09, 33 e 39.