sexta-feira, 20 de outubro de 2017

ORAÇÃO À SANTÍSSIMA RUÍNA DA CULTURA ACREANA

(para o dia da cultura fora de época)
João Veras


alimente mais os cupins do teatro hélio melo
não deixa apagar as labaredas do museu da borracha
esconda ainda mais o quadrilhodromo que escafedeu-se
ligue o ventilador sobre o centro de florestania que virou pó
ponha mais tapumes no espaço kaxinawá
destroce ainda mais a casa de leitura da gameleira
afaste mais ainda o leitor da biblioteca da floresta
ajude a trocar o nome da usina de artes
alague ainda mais o teatro recreio
suma com os escombros aquáticos do barco da afundação municipal
alimente os bichos da madeira do parque capitão ciríaco com os restos da finada igrejinha de nossa senhora da seringueira
instale mais split no teatrão nesse eterno verão sem teatro
jogue as chaves dos cadeados nas dragas de areia da ex praia do amapá
escureça ainda mais a casa dos povos da floresta
auxilie ainda mais para que o seringal bom destino possa se tornar como tanto deseja apenas um destino mal-assombrado
sistematize mais ainda o sistema estadual de cultura fantasma
aconselhe ainda mais o conselho de cultura mudo
tombe mais ainda o conselho do patrimônio cultural de vistas grossas
ofereça mais emprego de estátua para o movimento cultural bobo
cale ainda mais a boca da lei de cultura
muito mais que o nosso canto,
nossas expressões cênicas, literárias, plásticas, cinematográficas...
nossas memórias artísticas, nossos presentes ignorados
enterre ainda mais o “artista da terra” no fundo do poço escuro
e o promova à galeria dos esquecidos mortos célebres
jogue mais praga sobre o que não existe nos demais municípios
e não esqueça de derrubar o que ainda resta em pé
aproveite a ocasião e festeje esse governo sem graça
- esse da agência cultural dos amigos
e da ruína cultural do resto, dos demais
até que as eleições e suas licitações as reinaugurem
e tudo volte ao nosso paraíso de dante.
Amém.

P.S.: Não esqueça de juntar tudo isso e colocar no Museu da Ruína dos Povos Acreanos.

19.10.17

terça-feira, 17 de outubro de 2017

MITO DE MACUNAÍMA O DESOBEDIENTE*

          Quando Macunaíma ainda era criança seus irmãos sempre lhe estavam dizendo:
          – Nunca espies o sexo de mulher. É horrível. É perigoso. Foge dele.
Mas isso só servia para excitar mais a curiosidade do menino e o desejo de desobedecê-los.
Uma vez, andando pelos matos, Macunaíma encontrou uma árvore muito alta, mas seca, de tronco bastante grosso e escorregadio.
De um dos galhos daquela árvore, separado do corpo, pendia um sexo de mulher.
E mesmo seco e mirrado era tão horrível aquilo que Macunaíma viu logo não ser fruto enluado ou uma velha pele de morcego.
– Lá está um sexo de mulher!
Macunaíma então se transformou imediatamente num macaco-prego. E tentou escalar a árvore. E espiar de perto aquele sexo.
Mas o tronco era muito grosso e escorregadio. E seus braços de macaco eram muito curtos. E Macunaíma não conseguiu escalá-lo.
Transformou-se, por isso, num quati. E não conseguiu escalá-lo.
Transformou-se, ali mesmo, numa cobra. E também não conseguiu.
Transformou-se numa lagartixa. E nada conseguiu.
Transformou-se numa formiga. E, caminhando em zigue-zague, pelo tronco acima, bem devagar, chegou perto do sexo de mulher e pôde espiá-lo como queria.
Mas o sexo de mulher o descobriu. E, rápido, o engoliu.
Muitos dias depois os irmãos de Macunaíma, procurando-o pelos matos, ao passar por aquela árvore, viram o sexo de mulher, que conheciam, gordo e viçoso.
Desconfiaram. Puseram a árvore abaixo. Abriram aquele sexo. E ali acharam o corpo de Macunaíma. Sopraram sobre ele. E Macunaíma acordou, rindo, rindo.

PEREIRA, Nunes. Moronguêtá: um Decameron indígena (Vol.1). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1980. p.73
*Mitos, lendas, Estórias e Tradições dos Índios Taulipangue, Macuxi, Uapixana e Xiriana, do Vale do Rio Branco, Roraima.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

MEMÓRIA MUSICAL: CÉSAR ESCÓCIO

César Escócio é natural de Sena Madureira. Cantor e compositor, formado em Direito pela Universidade Federal do Pará, passou a morar em Belém, onde além de exercer a advocacia, dedica-se a compor e a cantar, especialmente na afirmação da cultura amazônica. Entre seus trabalhos, destacam-se o LP Caranã (1991) e o CD Omami Omami – Lutas populares na Amazônia (Coletiva) (1997).

O Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira traz os seguintes dados sobre Escócio: “Tem participação em movimentos e eventos artístico-musicais no Acre e no Pará, desde os anos 1970. Com diversas participações em gravações coletivas, lançou o LP solo “Caranã”, em 1995. Em 1997, produziu, em Belém, o CD “Omami Omami - Lutas populares na Amazônia”, do qual participaram compositores e músicos do Pará. Em 2000, participou do songbook “Canções Acreanas”, com a composição “Sou Fronteira”, parceria com o também acreano Océlio de Medeiros. O songbook, que foi publicado sem fins lucrativos, e que faz parte do Projeto “Caderno de Músicas Acreanas”, teve apoio de empresas oficiais como o Banco do Brasil, além de outras, de iniciativa privada, tendo por objetivo tornar pública a produção musical acreana. O compêndio é o registro fonográfico, através de um CD, e gráfico, contendo melodia, letra, harmonia e arranjos instrumentais, além de pequena biografia dos compositores e, também, avaliações de personalidades acreanas, como João Veras, que o idealizou e produziu, Francisco Dandão, Silvio Margarido, Romualdo Silva Medeiros e Danilo de S'Acre.”

O LP Caranã foi gravado e mixado entre março e junho de 1991, nos estúdios “TRANZATAPE”, 16 canais, em Belém do Pará. A ilustração da capa é uma pintura de Jorge Eiró, concebida especialmente para o LP, que contou com músicos como Sagica, Zé Luiz Maneschy, Silvana de Faria, Alcir Meireles, Ricardo Dias, Marianne, Paulo Levi, Luiz Pardal, Joba, Suelene e Nicinha, etc.
Capa de Caranã (1991)


Contracapa de Caranã (1991)
Cartaz da apresentação Made in seringal de César Escócio com a Banda Látex em Rio Branco em 1989.

Detalhe folder de Made in seringal

Folder do show Made in seringal (1989)

Letras de algumas músicas que se encontram no LP Caranã:

CARANÃ
César Escócio

Caraná
É o verão se achegando
Natureza afora
É um povo migrante
Que foge do tédio
Que foge do vício
Da cidade
Que busca o sopro do mar
Nas delícias da água
Na malícia das ondas
Nas crinas de um sol vermelho
Nas denguices de uma noite enluarada
Caranã
É a rosa das dunas originando as fontes
Despertando os cânticos
É Atalaia numa tatuagem viva
Trançada de gente
Que nem o arco-íris à beira do mar
Caranã
É o farol vermelho vagalumeando
No avisar da rota ao bom pescador
Que vem de tão longe
De dentro da noite
De volta pro seu amor
Caraná
É um tapiri de palha
Perto da ladeira, onde se dança
De onde se vê o verão
De onde se avista o porto
E o maçarico
E a gaivota
E a ponta de areia que entra no mar
Caraná
Somos nós e uma lua a brilhar
Somos nós e o sopro do mar
São as veias da terra a jorrar
Cristalinas salinas
Ah minha amada!
São promessas de amor
No olhar.


NORTEANDO
César Escócio

Norte andei
Selvamar
No reflorir do ipê
No dia da luamar
No céu fumacê
Pintou de novo a maré
Cunhã foi pro igarapé
Traçando seus tucumãs
Mirando-se nas manhãs
Nas águas de abaeté
Num barco faz sua fé
Pra retornar – Marajó
E não ficar assim tão só
Na linha do equador
Pensando no seu amor
Além de lá
O rio
O cheiro-ribeira
Cavalo do rio
Canoa ligeira
Eh, canoa!
Repique da maresia
Saudade agonia
Cuíra
Remanso de lua
Corações se buscam
Sem distância de amar
Em cada porto-cidade
Há uma espera-miragem
Em avidez, liberdade
Trabalho, fé e coragem
Em refazer o pão
Atravessando o verão


CÉU DO AQUIRY
César Escócio

Mirei
Mirei muchacha
Mira tu rambém
O cintilar das estrelas
Lindas no céu do aquiry

Canta toda essa beleza
Esse cheiro de mato
Que navega no ar

Canta pela natureza
E saúda os povos
Dessa floresta acesa
Pela luz da lua
Fogo do prazer

Mirei...


SOPRO AMAZÔNICO
César Escócio

Vociferar
A mata e seus mistérios
O verdejar desponta
Na ponta do olhar
Tanto chão
Quanta distância pra vencer
O céu e suas nuvens
Entre galhos e espinhos e rios
As vozes da mata
Numa canção selvagem
O sopro amazônico
Num verde forte refrão
Filhos desse império
Aldeias e tabocais
Tapuias e curumins
Araras e paxiubais
Serpentes e jacamins


RAINHA DA FLORESTA
Pia Vila, Felie Jardim e Txai Terry Aquino

Senhora rainha da floresta
Dai-me a força da ayawuasca
Pra cantar nessas malocas
Pros índios desse lugar

Quero beber caiçuma
E tomar muito cipó
Quero bailar o mariri
Nas aldeias do aquiry

Dai-me a força do jagube
Na luz do lampião
Iluminando todas as veredas
Que dão pro meu coração

Como é grande essa floresta
É maior a solidão
Dessa vida passageira
Desse verde sertão

Vou seguindo pela vida
Varejando de ubá
Todos os rios dessa terra
Unidos chegarão ao mar... 


Nossa homenagem ao artista César Escócio e o nosso agradecimento ao amigo João Veras.

domingo, 15 de outubro de 2017

O SER PARA A MORTE, SEGUNDO HEIDEGGER

Inês Lacerda Araújo
Filosofia de todo dia

Na concepção de ser para a morte, Heidegger concebe nossa finitude como marca essencial do ser humano, em termos ontológicos.

Viver no tempo é saber-se finito, que o ser humano vive até o fim. A morte está em nossa vida. O fato de estar lançado e ser para a morte angustia. A experiência da morte dos outros faz ver nossa determinação ontológica, isto é, o fim inevitável. O corpo do morto ainda é cercado por resquícios de algo vivo nas celebrações do funeral, muitas vezes se procura substituir quem já foi, mas não se pode assumir a morte do outro, e sim a sua própria, ser-aí que vai morrer, que esse é seu modo de ser, insubstituível. O ser-aí não finda como as coisas que se acabam ou como animais que morrem. No momento em que o homem é, ele já é seu fim, esse é seu modo de ser.

Enquanto modo de ser, a análise existencial é incompatível com suposições sobre a pós-morte. A estrutura ontológica e existencial da morte consiste na possibilidade de poder não mais estar aqui, ser-aí, presente. Ora, como o ser-aí depende de poder ser isso ou aquilo, o tempo todo, a morte é a possibilidade que impede todas as possibilidades. É a possibilidade mais própria e insuperável na qual o ser-aí já está lançado. E ele experimenta isso pela angústia. Ser no mundo angustia pois é ser para o fim. Nada a ver com o medo da morte. Esse medo de morrer se acha na cotidianidade, a morte é compensada pelo palavrório, pelo tornar público aquele sentimento, escamotear dissolvendo-a pela publicidade, e isso para evitar encará-la, melhor não pensar nisso.

No projeto existencial, diferentemente, sabe-se que a morte é inevitável, ponto final. Daí decorre uma liberação para as possibilidades compreendidas agora como finitas. O que dá uma nova dimensão para a existência. Estar aberto para a certeza da morte redimensiona a vida, a angústia mantém essa abertura frente ao nada, a liberdade para a morte. Não somos o nosso próprio fundamento, o pro-jeto nos lança para frente, o que no fundo é nada, e ao mesmo tempo, somos livres para assumir diversas possibilidades. O nada está essencialmente inserido na estrutura do estar-lançado” e “o nada existencial não possui o caráter da privação”. Ser livre em suas possibilidades é ser livre para escolher uma delas e suportar não ter escolhido outras.

Em nossa situação atual, o esquecimento do ser parece mais grave. Domina o que Heidegger chamou de "palavrório", a inconstância, a agitação febril, o diz que diz que, mensagens e mais mensagens, imagens e mais imagens. Veja isso, comi pizza, meu filho engatinha, meu gato mia, e mais e mais banalidades.

Você se sente confortável com tanto poder da curiosidade?!

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

JOANA

Gerson Albuquerque


“Eu mato minha filha e me mato”, pensou Joana Maria e Paiva olhando para o vai-e-vem de hóspedes que entravam e saíam do Hotel Chuí, em meio à umidade e ao calor do inverno amazônico.

Engravidara de um fantasma e, revelada por uma aparição na noite anterior, sabia que se tratava de uma menina.

“Fantasma de três pernas”. Comentou zombeteira, uma amiga de escola. Mas, Joana não lhe deu nenhuma atenção. Sempre ouvira que gente como ela somente tinha direito a não ter direitos e, em contendas com sua índole, passara a assumir essa sentença envolta em um tom de indignada ironia.

Nem bem completara dezesseis anos e não poderia voltar pra casa dos pais: jamais acreditariam na fantástica história de uma virgem engravidada.

No limiar de seu ocaso, permaneceu na rua durante toda a noite e, nas proximidades do quartel da polícia, ouviu vozes acompanhando as sombras que movimentavam a Praça Rodrigues Alves na alta madrugada. Às cinco horas, resoluta e despindo-se de todo o pudor, desceu a Avenida Getúlio Vargas em direção ao Segundo Distrito. No cruzamento com a Epaminondas Jácome, evitou olhar para o mercado municipal, na Praça da Bandeira, e se dirigiu à Juscelino Kubitschek, que unia os dois distritos da cidade, subindo e equilibrando-se no passeio do lado esquerdo da ponte metálica.

Com a intenção de aproveitar a correnteza de um rio que se alimenta de suas margens, deixou-se cair com os olhos firmes nas águas inquietas, o corpo inerte no intransitivo daqueles segundos feitos de espaço. Um corpo rasgado de lembranças, cicatrizes da vida inteira.

Nem bem os raios da luz solar alcançavam as cumeeiras das velhas casas da Rua África, flutuou em suave performance, desaparecendo entre as espumas, balseiros e terras caídas.


ALBUQUERQUE, Gerson. Eu panfleto tu panfletas eles rasgam os panfletos. Rio Branco, 2017. (panfleto literário)

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

LENDA DO TAMBATAJÁ (versão taulipangue)

Foto: Carlos Macapuna


Uma índia macuxi fugiu da Maloca Bonita, no rio Surumu, com o filho de um tuxaua taulipangue.
Os pais e parentes dela ficaram zangados. E os pais e parentes dele, também.
Mas a moça macuxi e o moço taulipangue não se importaram com a zanga dos velhos, porque se queriam muito na força do seu desejo.
E foram morar para as bandas da Serra da Lua, do outro lado do rio Tacutu, onde viviam uns parentes dele.
E nunca se separavam.
Se ele ia pescar, ela ia também.
Se ele ia banhar-se, ela ia também.
Se ele ia caçar, ela ia também.
Se ele ia para a roça, ela ia também.
Nove meses depois a índia sentiu que ia ser mãe.
Assim, à hora em que o sol de verão obriga a toda gente (e mesmo os animais) a repousar na sombra, ela se encaminhou para a beira do rio Tucutu.
E lá onde encontrou um chão bem limpo, debaixo das ramas do ingá-i, pariu um menino.
O corpo dele era enregelado como a pele e roxo como a tinta do jenipapo.
E, enquanto mirava a criança com tristeza e lhe ia tirando as peles do corpinho, viu que nem mexia os braços e nem mexia as pernas.
Sentou-se, por isso, junto à água e nela a mergulhou três vezes. E três vezes lhe deu leves palmadas nas costas e nas pernas para a animar.
Mas a criança não se mexeu nem chorou. E arquejava. E todo o seu corpo tremia.
A mulher tentou levantar-se. Doíam-lhe os quadris e suas pernas não lhe sustentavam o corpo.
Então, gritou, gritou, gritou.
E parecia que o vento dos campos, soprando sobre as serras e os rios, não deixaria nunca, nunca, que alguém a ouvisse.
Mas as mulheres e curumis que vinham banhar-se, a ouviram. E foram no rumo daqueles gritos.
A índia estava ali. Tinha um menino morto nos braços. E não podia levantar-se.
Um dos curumis foi chamar o companheiro da índia. Vieram muitos homens com ele.
Uma das velhas, chamando as outras, havia cochichado:
– Essa não respeitou os conselhos que lhe deram quando enluou pela primeira vez. E a zanga dos pais dela a ensaruou.
O home tirou a criança dos braços da companheira e a entregou à velha que estava cochichando.
Levantou-a da beira do rio e a levou para casa.
Ela chorava baixinho e pedia que lhe devolvessem o filho.
E assim continuou, deitada na rede que tecera.
Num canto da maloca as velhas estavam passando urucu e carajuru no cadáver da criança.
No dia seguinte as mesmas velhas embrulharam aquele cadáver numa esteira.
E o enterraram no campo, pouco distante da maloca, sob um tapirizinho que elas mesmas levantaram.

No outro dia veio do lado inglês um velho pajé.
Dançou e cantou, até a noite, em redor da rede da índia. Soprou fumaça de cigarro sobre o corpo dela. Bateu folha nas suas pernas, nos seus braços e quadris.
E voltou para o lado inglês, dizendo que a mulher, noutro dia, se levantaria sozinha.
A mulher, porém, nunca mais pôde andar.
Então, (como nos primeiros dias em que ambos tinham começado a viver juntos) o homem passou a levar a paralítica por toda a parte,
Se ia caçar, levava a mulher também.
Se ia pescar, levava a mulher também.
Se ia para a roça, levava a mulher também.

Um dia saíram pelo campo comendo mangaba e murici. O homem a levava às costas.
O Sol foi embora. Veio a Lua. Veio o Sol. Depois veio a Lua.
E assim aconteceu durante muitos dias.
Muita gente já andava à procura deles. Andava daqui, andava dali, no rastro do peréqueté do homem.
E só depois de muitos, muitos dias, encontraram o arco, as flechas e o pérequeté do homem, a tanga, o pananpanan, os brincos e as pulseiras da índia.
Mas, ao redor dessas coisas, encontraram, também, moitas de um tajá, de um verde brilhante, que não conheciam.
Do corpo da índia e do companheiro teria nascido aquela planta, cujas folhas, na página inferior, mostravam uma outra folha semelhante a um sexo de mulher.


PEREIRA, Nunes. Moronguêtá: um Decameron indígena (Vol.1). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1980. p.70-72