sábado, 18 de fevereiro de 2017

PORONGO: POEMAS DE PAULO BENTES


PORONGO 
Paulo Bentes (1908-1979)

O Porongo ficou dependurado no moirão
do meio do terreiro.
Choveu muito à noite.
Eu ouvia o barulhinho da chuva
acariciando o telhado da casa
e
achando bonita a cantiga da água caindo,
parecia ver,
lá fora,
no campo,
as árvores esparsas se lavando
e o capinzinho alegre e novo
tomando banho...

                                               Corriam as horas....
                                               A chuva continuava caindo...

Da minha rede eu julgava
que a chuva
que o céu chorava
no lenço escuro da noite
havia de entrar pela terra,
secando,
nada restando mais
pela manhã...

                        dia.
                            Despertei.
                                   Olhei tudo ao redor da fazenda:
                                               Vi o campo verde
                                               todo molhado
                                               e no terreiro lavado
                                               o porongo cheio... cheio...

cheio de pingos de chuva
que são entornados agora... p.11-12


CANARANA DA BEIRA DO RIO
Paulo Bentes (1908-1979)

Canarana bonita
que na beira do rio
cantas
no teu chiado alegre
quando passa o vento...

És a alegria
das jaçanãs ligeiras
que procuram
à sombra amena
das tuas moitas
um abrigo feliz
aos seus amores...

Tu és tão boa
canarana bonita...

Vives fazendo o bem
e os barrancos te querem
como quê...

Mas um dia vem o rio
brutal
numa carreira louca
procurando o mar...
e sem ver o que faz
vai arrastando tudo...

indiferente e forte
passa
quebrando
e levando consigo
o barranco partido...
O rio leva tudo.
O rio come tudo.
Nunca está satisfeito...

E assim
canarana
a cidade tão verde
que tu fazes
bonita
na beira do rio,
lá se vai
na corrente...

Lá se vai... na corrente... p.27-29


A LANCHA CAURÉ
Paulo Bentes (1908-1979)

Tam-Tam
Tam-Tam...
Tam-Tam
Tam-Tam...

Café com pão
Bolacha não...

É esta a cantiga
da lancha “Cauré”.

Fungando
roncando
riscando
a corrente,
a lancha possante
fumando o charuto
da sua chaminé,
lá vai arrastando
sem pressa nenhuma,
reboques em linha
que vão arranhando
de leve,
de leve
o dorso do rio...

Chiiiii...

Começam cantando
os louros bigodes
das águas brilhantes
no escudo das proas
das rasas canoas...

As máquinas vibram
pingando suor
e dando mais força,
lá vai a cantiga:

Tam-Tam
Tam-Tam...
Tam-Tam
Tam-Tam...

Café com pão
bolacha não...

Café com pão
bolacha não...

A cadência
é certa.
É o batuque
das máquinas
pretas como carvão...

E assim
anda
anda...
De repente
gritos da popa:

Para!
Paara!..
P-a-a-a-ra, diabo!..
Olha a canoa!...

Logo em cima do rebojo!
Tlim...
Tliiim...
Param as máquinas.

“O que foi?”
“O que não foi?”

Quebrou o cabo!

A caboclada
das canoas que ficaram
sozinhas
no meio do rio
rema.

Anda com isso
diabo!
Rema!
Diabo de gente mole!

Amarra, amarra logo!

Aparece sempre um cabo mais forte
e
lá se vai novamente
a lancha da linha
puxando as fieiras
compridas
de reboques,
cheios de leiteiros
e roceiros...

Tlim...
Tliiim...
Tliiim...

E começa de novo
a cantiga tão certa
de batuque...

Tam-Tam
Tam-Tam...
Tam-Tam
Tam-Tam...

Café com pão
bolacha não...

Café com pão
bolacha não...

Chiiii...
Cantam
os bigodes
dourados
das águas...39-43


MURURÉ
Paulo Bentes (1908-1979)

Ó mururé bonito
que passas
deslizando
na corrente veloz
dessas águas barrentas
que retalham
a terra verde
onde nasci...

Porque
confias tanto assim
nos caprichos
dessa estrada larga
que corre,
te arrastando
a um destino
que não conheces?

És tu,
“nimphea alba”,
como certas criaturas
que passam pela vida
sem lutar...
Que indolentes
se entregam
a um destino qualquer...

Que confiam demais...

E assim vão descendo...
Vão descendo
o rio grande
da Vida,
passando ligeiro
como a galera
aprisionada,
que perdeu
a bandeirinha
verde
da esperança...
e que passa,
como tu
mururé
que és bem um símbolo,
ostentando
no tope
a flor
aberta ao vento...

Flâmulas lilás
da Resignação... p.47-49


CASA DE FARINHA
Paulo Bentes (1908-1979)

Na casa de farinha
que o velho meu avô mandou fazer,
toda coberta de palha,
embarreada
e agora esburacada,
velhinha,
a roda grande gira,
gira,
manhosamente.

Caboclo forte
espadaúdo
automaticamente
mecanicamente
a faz girar...

Na casa de farinha
a roda grande
que faz o fubá,
rodando
rodando
manhosamente,
parece tanto com a nossa vida...
parece tanto com a minha vida...

Caboclo forte
espadaúdo,
neste caso é o Destino
que não se cansa
de rodar...
Que não se lembra
de parar...

E a roda segue
girando sempre
girando sempre
monotonamente...
manhosamente...

monotonamente...
manhosamente...
....................................................

Eu olho atento
a roda grande
que gira
gira
manhosamente
e fico achando
tão parecida
tão parecida
com a nossa vida...

Com a minha vida... p.61-63


RIO CHEIO
Paulo Bentes (1908-1979)

Rio cheio.
Tudo coberto dágua.

Os campos
que eram verdes,
tão verdes,
estão escondidos
debaixo
do lençol ondulante,
cor de barro.

O gado que vivia solto
pelos campos largos,
claros,
inundados de sol,
está trepado
nas “marombas” altas.
Magro.
Zangado.
Comendo ração pequenina.

Os moradores da zona alagada
ficam presos na barraca.

Ficam presos
ilhados
tudo é água
ao redor.

A barraca
na enchente,
é “maromba”
de gente...

Quanta vez até isso
o guloso do rio
vai levando também...

Rio guloso
faminto
come tudo o que pode:

Come barraca,
lambe a roça
já crescidinha,
devora os campos,
engole barranco...

e vai embora...

Depreda
e vai passando.

Fugindo
pra longe...

Deixando atrás
tudo vazio...

Vazio... p.87-89


AMANHECER
Paulo Bentes (1908-1979)

Cinco da manhã.
O galo canta
no meio
do terreiro...

As ovelhas mansinhas
fazem coro
no curral distante.

Lá fora
escuro ainda...

Noite que se vai embora
de mansinho,
se arrastando,
mostrando uma vontade
louca
de ficar...

Mas a vez é do sol
que vem chegando,
medroso
ainda,
espiando por cima
das árvores imóveis,
clareando,
mostrando devagarinho
o dia
que quer entrar...

O capim
todo branco
molhado do orvalho
que a noite chorou.

O rio
grande
se espreguiça...

O urucuzeiro carregado
salpica
um pingo de sangue
na parede verdíssima
da mata.
A fazendo Alegria
abre os olhos
ao dia.

É hora:
levanta-se o pessoal.
Prepara-se o café,
o beijú
o mingau.

No terreiro
as cunhãs:
Tuc-Tuc-Tuc...
batendo no fundo das cuias...

As galinhas avançam:
é o milho.

Os caboclos saindo
em busca dos roçados,
levam longos terçados
e cambitos nas mãos...

Os porquinhos gordinhos
grunhindo
correm
irrequietos,
e no alto das bananeiras
os papagaios
discursam.

Os moleques em bando
correndo
gritando
vão pra beira do rio
carregando porongos...

Tudo agora é atividade.
Ruído.
Tudo trabalha
e faz o seu pedaço
de barulho...

É quando o sol
perde o medo
e levanta-se
espancando
as últimas neblinas.

Fica tudo dourando...
Cheio de luz... p.117-120


AMAZÔNIA
Paulo Bentes (1908-1979)

No isolamento dos grandes desertos,
no meio das águas
e das florestas,
o neto dos índios
está fazendo
um Mundo... p.123


BENTES, Paulo. Porongo. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores, 1940.

PAULO de Meneses BENTES nasceu em Manaus-AM no dia 19 de agosto de 1908, filho de Antônio da Gama Bentes e de Ester de Meneses Bentes. Advogado, engenheiro agrônomo, e deputado federal pelo Pará e pelo Amazonas, Paulo Bentes foi ainda jornalista, escritor e poeta. Foi membro fundador da Academia Acreana de Letras e da Academia Carioca de Letras e pertenceu à Associação das Academias de Letras do Brasil e à Sociedade de Homens de Letras do Brasil. Foi diretor da Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), da Colônia Agrícola Nacional do Pará, da Fundação Zoobotânica de Brasília e da Colônia Agrícola de Jaguaquara, na Bahia. Foi também procurador da Justiça Eleitoral no Acre e fundador da Legião Amazônica, entidade destinada à defesa dos recursos naturais da região. Faleceu no Rio de Janeiro em 5 (ou 6) de dezembro de 1979. Era casado com Carmem Dolores de Sisnando Bentes, com quem teve seis filhos. Além de lançar as revistas Academia de Letras do Acre e A Selva, publicou várias obras sobre a Amazônia, entre as quais O outro Brasil, Tavares Bastos e a Amazônia, Parongo e A hiléia.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

AMAZÔNICAS














Fotos: Isaac Melo

BREVÍSSIMA HISTÓRIA DA ARTE ACREANA

BREVÍSSIMA HISTÓRIA DA ARTE ACREANA DE RIO BRANCO - TOMO I
João Veras

O teatro de Betho
As matas de Matias
O filme de Silvio
A performance de Maués
As telas de Hélio
Os violões de Dirciney
As crônicas de Toinho
A precisão de Fátima
A poesia de Bartholomeu
A prosa de Océlio
O maestro Sandoval dos Anjos
O Coral de Elais
A fanfarra de José Alberto
As escolas de samba de João
A música de Damião
Os causos de José Chalub
As pinturas de Danilo
As memórias de Naylor
A floresta de Ivan
O cinema de Adalberto, Toni Van, Teixeirinha, Leupes...
As estripulias do palhaço Tenorino
As criações de Jorge Carlos
A xilogravura de Dalmir
As canções de Keilah
A sanfona de Nilton
O regional de Bararú
Os bárbaros
Os Mugs
A voz de Nilda
Os contos de Leila
A miscelânea musical de J. Conde
A poesia de Juvenal
A cidade se diverte de Chico
As estórias de Gregório
O Cine Rio Branco
O Cine Acre
O teatro de arena do SESC
O Casarão
O Jirau
O violão de Elias
A guitarra de Rubão
Os poemas de Manoel
As esportivas de Dandão
As lendologias de Clenilson
A vida musical de Pia
A curta obra musical de Beto
As letras de Felipe
O cine teatro Recreio
A bateria elétrica de Hermógenes
O contrabaixo paciente de Clevisson
Os improvisos teatrais de Ivan
As danças de Regina
O canto de Heloy
A composição de Sérgio
Os quadros de Bab
Os ritmos de Narciso
As pinturas de Rivas
As pastorinhas da Guajá
As aventuras de Trotamundo
BREVÍSSIMA HISTÓRIA DA ARTE ACREANA EM RIO BRANCO
TOMO XXI

A peça Pactos Insustentáveis
O blog Alma Acreana
A cena hedcore acreana
As crônicas de Aluisio Maia
As cores de Genésio
Os enverseios de Antonio
Os registros de Alexandre
Todas as bandas pops acreanas
O Festival Universitário da Canção da UFAC
O Estádio José de Melo
O Ginásio Coberto Álvaro Dantas
O forró do Senadinho
O grupo Sempre Serve
A crítica literária de Laélia
O Porão
O felizmetal
A usina de Artes
As harmonias de Taboada
As quimeras poéticas de Neiva
Os ecos das canções de Tião
O canto de Verônica
O violão de Geraldinho
Os desenhos de Branco
A piaf de Edunira
A página O Contexto Cultural
A poesia praxis de Clodomir
O FAMP
O cantor Geraldo
O Teatro Barracão
Pranchão cantando
A performance cantica de Carol
O Projeto Pixinguinha
As fotos de Américo
A atriz Kika
O Teatro Horta
A casa de leitura Chico Mendes
Os hinos do Daime
A biblioteca pública do Acre
A música gospel acreana
A banda de música da PM
As tocadas de Chiquinho pai
Os arranjos de Chiquinho filho
As declamações de Bruxinha
Os Raimundos de Écio
A praia da base
As guitaras de Charles
A percussão de Baiano e Koka
A peça radiofônica O Egipsio
Os teclados de Mirim
O blog do Altino
O forró de Monteirinho
A Orquestra Filarmônica do Acre
A atriz Manga Rosa e o ator Vladimir
A interpretação de Clarice
O atuação de Cleber
O filme Rosinha a Rainha do Sertão
O sax boêmio de Fernando
O cavaco de Bené
A atriz Áurea
A peça Viva Rio Branco Total Radiante
A peça Toda Noite Tem Pichação
O festival da Praia do Amapá
Garibaldi Brasil
A sonorização de Adalberto Dantas
O pandeiro de Duda
A poesia declamada de Raimundinho por ele
As academias de Mauro
O poético Pranto do Seringueiro de Mário
O Barracão do Quinze
A poesia matuta de Fernando Castela
O clube da madrugada
As charges de Braga
A peça Tributo A Chico Mendes
As contações de Karla
A música Estrela Cadente
O violão e a voz de Ademar
O festival de teatro amador do Acre
O festival de cinema e vídeo do Acre
O gogó de Auricélio
O samba acreano de Da Costa
O contra-baixo de James
Cesar e suas belas canções acreanas de Belém
A banda acreana de São Paulo Los Porongas
O anoitecer radiofônico com Coronel Chicão
As joias da Velha Guarda de Cicero
A música brasileira do Acreano João
A rede Banzeiro no carnaval
O piston de Chico
O Mundo Cão de Estevão
A voz da selvas
Pedro Paulo Menezes de Campos Pereira
O cronista esportivo Garotinho
As narrações esportivas de Delmiro
As manhãs radiofônicas do Cumpadre Lico
Mestre Assis
Zequinha do Caruarú
O cavaco de Chico do Codó
O conjunto Caravana do Pecado
O Jabuti Bumbá
A família Farias das artes
O Barracão da Ozi
A Marujada acreana e seu Aldenor
A música dos dois Zecas Torres
A verve amazônica de Crescêncio
A Tentamem
O Sborba
As produções de Jorge Nazaré
Os vídeos de Sian
A Saudosa Maloca
Os bailes seixas de Ozanan
A Banda Tropical
O rock baião de Àlamo
A poesia não publicada de Edson Alexandre
A arte seringueira de Raimundo Alves
A alegria original d’Os Alquimistas no Casarão
Os sopros de Sandoval
A Comissão Pró-Indio
O papo de Indio de Terry
O Grupo Capú
Os Cablocos da Terra
As noites com os imãos Beko e Léo
Os funks do Palhaço Rufino
As crônicas musicais de Andrelino
O Teatro acreano do carioca João
As canções cruzeirenses de Alberam e Louro
A luta teatral de Lenine
A gráfica de Nivaldo
A peça o Beco do Mijo
A literatura de Florentina
As músicas cariocas do acreano Sergio
O piston incansável de Bady
A inúmeras composições de Francis
O Obeservatório Permanente das Artes-OPA!
A FETAC
Mapinguary
As invenções de Gesileu
Os grafiteiros de RB
Os vídeos de Ítalo
O grupo de teatro de Olho na Coisa
A casa de cultura Vivarte
O instrumental do Caldo de Piaba
Os dedos sonoros de Andrezinho
As canções de Manoelzinho
A pintura naif de Cerezo (que ilustra este post)